A China tem 20% da população mundial mas apenas 3% do consumo mundial. Apesar do crescimento a dois dígitos, a economia chinesa está “desequilibrada, instável, descoordenada e insustentável”, segundo palavras do primeiro ministro chinês. É uma economia dependente da exportação, que representa 65% do PIB chinês. O inverso da economia americana, em que as exportações representam 28% (dados de 2007). Em palavras simples: os americanos consomem demais e os chineses consomem muito menos do que deviam. Esta situação é uma bomba relógio na economia mundial. Um “sarilho com duas bolhas” (“double bubble trouble“). Se o desequilíbrio não for corrigido, poderá sobrevir uma crise de proporções muito maiores.
Este aviso está bem expresso no livro “The Next Asia: Opportunities and Challenges for a New Globalization“, de Stephen Roach (acabado de editar pela Wiley), onde ficarem reunidos
artigos publicados ao longo dos últimos anos. Roach foi um dos economistas que previu a crise a vários anos de distância (pelo menos desde 2004) e tem estado especialmente atento às interacções entre o “Ocidente” e a região asiática. Ao contrário de muitos observadores deslumbrados com as taxas de crescimento da China, Roach está pessimista com o futuro da região asiática. A única forma de evitar um crash económico e social será reduzir a dependência das exportações e… começar a consumir.
No Ocidente, é o inverso: os americanos e os europeus devem reaprender a poupar. Como diz Roach: “game over for the american consumer” (pag. 5).
O reequilíbrio passa por uma mudança radical na actuação dos bancos. Na Ásia, eles devem expandir o crédito ao consumo. No Ocidente, devem retomar o crédito ao investimento. O contrário do que têm andado a fazer.
Não resisto a citar Roach, num dos textos incluídos neste seu livro mais recente: “Uma estratégia mais eficaz será tentar pivotar a economia do consumo para as exportações e para os investimentos em infra-estruturas necessárias a longo prazo. Não será fácil fazê-lo. Uma mudança como esta no mix da economia irá passar por medidas favoráveis à exportação, tais como um dólar fraco e o aumento do consumo no resto do mundo, fortalecendo a oferta dos produtos feitos na América. As medidas fiscais devem ser orientadas para incentivar o trabalho de base para o crescimento futuro, especialmente as antiquadas estradas, pontes e portos do país. (…) A focagem nas exportações e no invesdtimento em infraestruturas poderá limitar a recessão. Esta aproximação poderá também estabelecer a base para uma etapa económica mais equilibrada e sustentável no próximo ciclo.” (pag 37, tradução nossa).
Stephen Roach apontou as prioridades de política económica para a administração Obama: poupança, exportações e reforma do sistema financeiro (p. 57). A receita é válida para todos os países e regiões a braços com a “postbubble economy” (a economia depois da bolha ter rebentado). É válida para a Europa e até para pequenas economias como a de Portugal.
O lado maléfico da globalização não são as lojas chinesas. São os bancos que continuam a acreditar que o Sr. Silva é capaz de pagar pontualmente as prestações de um electrodoméstico de “última” geração (que ficará “obsoleto” em menos de um ano), mas não acreditam que é capaz de pagar as prestações de uma nova máquina para aumentar a capacidade da sua empresa industrial. São os mesmo bancos que, na China, alavancam a produção em massa, mas não financiam o consumo dos bens que os chineses produzem. Quando os ocidentais, insolventes, deixarem de poder comprar tudo o que vem da Ásia, a bolha rebentará. Provavelmente, o crash financeiro poderá ser acompanhado de um crash social.
O sistema financeiro mundial, com toda a sua sofisticação e complexidade, é coisa para peritos. Mas, se reduzido à sua expressão mais simples, não passa de uma aldrabice. Ele é bem mais perigoso para a saúde e futuro da espécie que as alterações climáticas.


